Publicado por: A Ovelha Perdida | 28 de Junho de 2010

A luta de Margarida

Nova manhã de terça-feira e lá vou eu a caminho do Projecto SOS Bebé. Já estou com o coração apertado. Apesar dos longos anos de serviço na área social há sempre situações que são novas e mexem mais comigo.
Demoro dez minutos a chegar lá, a caminhar desde a minha casa. Cruzo-me com pessoas na rua, olho os seus rostos. Gosto de ver as caras das pessoas. Inspiram-me.
Chego à porta e já lá estão as outras voluntárias. Cumprimentamo-nos com uma alegria e um sorriso rasgado como se fôssemos para um posto de trabalho bem remunerado num ambiente agradável. Nada disso. A Ana é assistente social e está desempregada, a Antónia é reformada da Santa Casa e eu divido o tempo entre a minha comunidade e as instituições a que estou ligada.
Claro que vamos atender bebés de famílias bastante carenciadas e muito fragilizadas. Apesar dos motivos que as levam ali serem quase sempre os mesmos: desemprego, separações ou doenças, há sempre algumas histórias de vida que mexem mais com os nossos sentimentos.
Hoje recebemos a Margarida, 19 anos, casada. Tem um bebé de 18 meses e está desempregada assim como o marido. Foi-nos pedir ajuda para o bebé.
Começámos a entrevista a fim de conhecer concretamente a situação, porque não queremos promover a subsídio-dependência ou a pedinchice que dispara em todas as direcções. Ouvi então: «Eu não quero subsídios, eu quero trabalho, qualquer trabalho, o trabalho não me mete medo, já trabalhei num café, na Coca-Cola, num supermercado. Não quero ficar dependente de ninguém, sei bem o que isso é, a minha mãe foi dependente do meu pai toda a vida e foi uma mulher frustrada e com depressões atrás de depressões. Eu não quero que o meu filho viva o que eu vivi, não quero que lhe falte nada, eu quero fazer o meu caminho e vou lutar em todas as frentes.»
Depois de lhe dar umas dicas saímos à rua e fomos à loja do chinês, quase em frente, perguntar se não precisavam de uma empregada. A resposta foi negativa: “Isto está muito parado e o patrão não emprega ninguém…” Voltámos à instituição a conversar sobre a sua vida, quando lhe perguntei quem ficaria com o bebé quando ela conseguisse um trabalho. Com os olhos cheios de lágrimas, disse: “A minha mãe faleceu há cinco meses e eu preciso de arranjar uma creche e um trabalho, mas sei que vou conseguir”.
Doeu-me a alma.

Fonte: Susete Lino, rubrica “Porque nos dói a alma”, O Setubalense.


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